Em tempos de desamor, egoísmo exacerbado e violências gratuitas, qualquer bom sentimento envergonhado traz um montão de claridade.
Os moços cinzentos de caras sérias, de vidas sérias, de infindável seriedade de fazer chover bens e dinheiro em suas hortas, não enxergam além dos jardins poeirentos de suas próprias solidões e as de seus entes.
A lógica dominante, massificada quase como lavagem cerebral da humanidade faz girar o dia e o mundo num embalo cíclico de consumir para ser consumido. Um INconsciente coletivo.
Escravos do trabalho, escravos do consumo, escravos da informação excessiva. Escravos de uma tendência ao egocentrismo, enclausurados em suas telas touch, fones de ouvidos, paus de self de não-relação.
É espantosa a normalidade mórbida posta à ausência de céu aberto sobre nossas cabeças e à falta de estrelas na noite, tristemente apagadas pelo excesso do mundo contemporâneo.
Excessivo, porém avarento. Excesso pra uns poucos às custas de muitos com tão pouco ou quase nada.
Estranho mundo de não-relação.
Estranho mundo em que gera estranheza um olhar sincero de bom dia vindo de um estranho.
Estranho mundo em que a dor do outro causa aversão e fuga ao invés de sentimento solidário.
Estranho mundo que naturaliza uma realidade em que as crianças passam muito poucas horas do dia com os pais.
Estranho mundo em que espontaneidade é sinônimo de loucura.
Quando, na verdade, padecemos de carência de espontaneidade.
Os passos são dados e as palavras pensadas com destreza para enquadrar aos padrões vendidos como ideais.
Tanta criatividade sufocada...
Tanto sentimento racionalizado para agradar a qualquer um, para seguir "o correto".... para permanecer incompleto...
E de incompletude vai sobrevivendo a humanidade, cheia de vazios criados, distanciamentos inventados...
Na contramão, como loucos desvairados, uns trocam conversas descompromissadas nos transportes públicos, dão boa tarde a algum transeunte desconhecido de olhos brilhantes e cheios de cumplicidade com a vida. Outros lêem poesia murmurada em volume suficiente para fazer com que os que os cercam no ponto de ônibus se contaminem com a beleza das palavras. Dançam na praça, estendem as mãos, trocam palavras de afeto.
São sinceros com seus sentimentos.
Vivem amores mesmo que proibidos, olham nos olhos, roubam beijos e abraçam apertado.
Não tolem. Compreendem.
Sabem ser terra fértil.
Têm amor e não o sufocam.
quinta-feira, 2 de julho de 2015
TERRA FÉRTIL
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