“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”. Simone de Beauvoir
Na infância, bonecas e brincadeiras de fazer comidinha, casinha....
Aos 9 anos, meu primeiro assédio.
Cantava feliz e inocente dependurada na janela do ônibus da escola. Era uma música brega e meio sensual do Sidney Magal (!!!). Um homem me viu cantando e fez gestos com as mãos e com a língua remetendo ao ato sexual.
Aos 10, fui obrigada a usar a parte de cima do biquíni na praia para esconder meus mamilos que haviam estufado meio centímetro cada.
No aniversário seguinte, atirei meu presente na parede: meu primeiro sutiã. Nem imaginava o simbolismo que isso teria um dia.
Aos 12, sofri pela primeira vez de violência sexual.... Apaguei e reescrevi essas últimas palavras... porque mulheres sempre tendem a amenizar questões de desrespeito e violência de gênero que sofreram ou sofrem. Mesmo com esclarecimento, é difícil falar. Tanta repressão e submissão fingindo não ser... Naturaliza, minimiza, ridiculariza.
Saí para comprar uma revista e o jornal para o meu pai. Três meninos de idade próxima a minha estavam juntos e um deles passou a mão no meu ânus, reproduzindo o aprendizado machista ensinado por algum adulto. Tamanha foi minha perplexidade e raiva....
Ficou tudo guardado só pra mim.
Fora coisas mais explícitas desse tipo, a partir dessa época, comecei a ter que me conformar que eu e somente eu teria que lavar a louça dos almoços de final de semana, enquanto meus irmãos faziam o que lhes trazia prazer ou descanso.
Mediam o comprimento da minha bermuda na escola: "no máximo 4 dedos acima do joelho". Ouvia repreensões porque "mulher não fala palavrão", fui chamada de puta por beijar meu namoradinho num banco de praça...
Perto dos 20 anos, passei 15 dias numa aldeia indígena isolada no Mato Grosso e 4 meses numa reserva na Amazônia. Fui sozinha. Para conseguir ir tive que omitir até chegar lá ou até o momento de ir. Afinal, eu sou mulher e eu poderia correr riscos e isso estava fora dos padrões.
Por ser mulher, passei anos tendo que usar vestes e amarras para me enquadrar. Acabei casando e tendo filho.
E hoje me dispo destas vestes e amarras sociais e psicológicas que não são minhas. Algumas são difíceis de identificar. Como o machismo também o é. Tão enraizado e naturalizado... tem gente que nem nota na própria fala.
Talvez não tivesse casado... Talvez fosse mais livre.
Hoje, trabalho, pago as contas, crio uma criança, cuido da casa, faço comida, vou ao mercado e à feira, troco lâmpadas, vou à reuniões de escola, levo o carro no conserto, abro potes, conserto tomadas, etcétera.
E ainda! Sinto na pele a imposição cultural de que a função precípua da mulher que tem filho é ser mãe. Não adianta nenhum argumento.
Mãe é sabedora de todas as soluções, detentora do saber primordial sobre as crianças e "tem coisas né?! que só a mãe mesmo!". Mãe tem que estar pronta em qualquer imprevisto.
Êeeh cansaço!
Ah! "E você deveria ter orgulho disso!"
"Você abandonou seu filho e foi pular carnaval!"
E ainda tenho que ouvir esse tipo de coisa!!!
Minha história não tem nada demais comparada às histórias vividas por muitas mulheres. Mas é sempre bom lembrar que esse dia é de luta por mais respeito ao feminino. De perceber até que ponto há tolerância demais em situações de machismo naturalizadas.
Enxergar e não deixar mais situações como essas se tornarem banais é resistir. Não deixar perpetuar.
Meu ato mais revolucionário e maior desafio é criar um menino que não faça distinção nem de cor, nem de gênero, ou outra distinção qualquer, apesar desse mundo esquisito ao redor. Não deixarei perpetuar.
Mulheres, suas lindas, parabéns pela força!
