Fazer planos...
Desde criança concretizei a idéia de que vim para esse mundo para ser mãe. Não conseguia imaginar uma vida sem filho. Mas demorei para decidir tê-lo.
Sempre esperando pelo momento certo. Ter emprego, morar num local adequado, ter certeza de ter curtido tudo que só dá para fazer sem filhos, ter uma rotina de trabalho que me permitisse participar do dia-a-dia do filho.
Os 2 últimos tópicos me aterrorizaram, tiraram meu sono e me fizeram exitar... por anos!
Até que me encostaram contra a parede e me questionaram "Vc não quer mais ter filho comigo?!"
Cedi...
Se passaram os 9 meses mais mágicos, de auto conhecimento e contato com minha espiritualidade da minha vida! Olhei para dentro. Profundamente. Tinha alguém lá dentro, mas eu tambem estava lá. E eu enxergava, sentia e ouvia claramente.
Que gravidez desejada e festejada! Foi perfeito!
Muitos planos...
Bento nasceu! Foi crescendo... Compramos casa, mais um carro... Finalmente tive meu primeiro microondas!
Bento continuou crescendo... Fez 1 ano!
E os planos foram abandonados.
Casa, carro, criar um filho, família... Projetos de vida bem projetados amassados como rascunho ou rabiscos num papel de pão. Pra quê planejar???
Não planejei criar um filho sozinha, muito menos morar numa casa enorme com apenas 1 criança. Não planejei ser mãe, servidora pública, dona de casa, chefe de família e administradora de toda a manutenção de um imóvel. Tudo ao mesmo tempo!!! Está ruim de dar conta.
E ainda tenho que sorrir e estar bem disposta para retornar aos meios de convivência social, para evitar de me perder no meio de minhas orquídeas, tomando café e calçando pantufas.
Mas tudo isso é nada quando penso no prejuízo real. Minha espontaneidade de quem concretizava sonhos se perdeu. Hoje tenho uma casa que simbolizaria minha independência e um lar onde eu poderia agregar tudo o que me dá prazer: amigos, jardim, costura, pintura, culinária, crianças... E dá tempo para isso???
Pior: aquelas minhas múltiplas funções me fizeram perder a espontaneidade ao criar meu filho.
Até ele completar 1 ano, conseguia enxergar tudo por uma ótica cheia de poesia; cuidava da educação e brincava de um jeito bastante lúdico. Sorria e era muito feliz por estar criando uma criança. Ainda sou, mas hoje faço tudo mal feito. Cuido mal de mim, cuido mal da casa, trabalho mal, não consigo ter das melhores relações de amizade, não consigo brincar e dar atenção ao Bento como gostaria. Não tenho mais a paciência que deveria...
Então para quê planejar???
Os planos existem para que existam as frustrações. Que são necessárias, pois geram o movimento para as grandes mudanças.
Mas que doem.
E no geral, os planos estão impregnados por critérios e características que não são nossos, mas de outras pessoas. Mesmo que inconscientemente criados.
Agora, do outro lado está o sentir e o improvisar.
Quando os planos são frustrados, o jeito é improvisar e muitas vezes ousar e se permitir experimentar.
Então não são planos; é intuição. E se está em mim a resposta para o caminho a seguir, basta silenciar e estar atenta aos sinais que estão em todo canto.
Está nas coisas e pessoas que me agradam, mas também naquilo que me incomoda ou constrange. Está na luz vislumbrada em algum lugar, em uma memória muito marcante; está nos sentimentos gerados nas minhas relações cotidianas.
É aquela sensação de deja vú, quando enxergo uma circunstância, um sentimento, uma pessoa ou lugar como se já fizessem parte de mim. Aí está a resposta! É confortável viver, ou conviver; estar ou sentir; é pleno e traz paz. Um sentimento de pertencimento.
Cabe a mim estar atenta e não exitar. Apenas.
