O dia dos mortos foi ensolarado. Mesmo com sol, um sentimento de luto amanheceu comigo. Um desejo de recolhimento, uma introspecção sem hora, atípica presente a semanas, meses. Se intensificou nos últimos dias.
Talvez seja um estranhamento, um aguçamento dos sentidos por conta do 31 de outubro. Comercialmente tomado pelos EUA e formatado como o Hallowen, mas que originalmente evoca espíritos e seres míticos de diferentes culturas, relembra folclores, bruxas e feitiçarias, parte da história do mundo e parte da história de luta e resistência das mulheres.
Talvez pelos resultados das eleições municipais, cena facilmente ilustrada pelo que há de mais bizarro e assustadoramente conservador tomando cargos de prefeitos e vereadores pelo país afora. Por mais que não acredite nesse sistema político representativo, ainda persiste um desejo de ver algo diferente acontecer.
E nesses três dias de 31 de outubro a 2 de novembro, entre mitos, todos os santos e mortos, atentei para o cenário mórbido que se apresenta.
Um país governado pela cúpula do egocentrismo e do caráter duvidoso, que janta os direitos da sociedade em banquetes luxuosos. Em troca pelos direitos sociais: um maior endividamento do país para atendimento dos interesses das instituições financeiras intimamente negociados com os monstrengos do congresso. Entretanto o discurso vende: "é para livrar o país da crise".
Enquanto isso, tentam aprovar salários vitalícios para vereadores do Rio e declaram estado de calamidade no estado, mas negligenciam a possibilidade de cortar incentivos fiscais.
Houve aumento salarial do judiciário e também foi "conquistado" o aumento de R$ 58 milhões para deputados, senadores e ministros.
Aumentos estes ¨possíveis¨ porque pretendem congelar por 20 anos verbas para a saúde, a educação, a assistência social e serviços públicos em geral, foi suspenso o programa nacional contra o analfabetismo, venderam o pré-sal, cortaram benefícios de idosos e deficientes em situação de vulnerabilidade financeira, além de outras perversidades absurdas.
Parcela da população que se indignou contra a corrupção meses atrás, parece que foi tomada por algum mal e, tendo sido hipnotizados, permanecem focados exclusivamente em suas próprias vidas. A corrupção acabou?
Por outro lado, aqueles que se rebelam e se manifestam são forte e violentamente atacados com cassetetes e bombas atiradas por robôs responsáveis pela "ordem pública". Nem idosos, nem crianças são poupados. Manifestantes vão presos por qualquer motivo inventado na hora.
Para reivindicar melhores condições de ensino e garantir o livre pensar, estudantes ocupam suas escolas e universidades, cuidam delas e buscam o conhecimento teórico e prático que entendem como necessário para sua formação.
Então... é liberada aos policiais militares a tortura de estudantes. Policiais e classe média burguesa agem com violência física e psicológica contra adolescentes...
Tem gente que perdeu a vergonha e escancara mesmo suas intolerâncias e aversões. Candidato é eleito mesmo após afirmar que vomita com cheiro de pobre. Ódios exacerbados, intolerância e incitação a violência contra a diversidade.
E a censura vai botando as asinhas de fora outra vez.
Veja só! Teatro de rua foi interrompido, um ator preso e instrumentos musicais apreendidos.
Naquele momento em que você acha que vai acordar, vem aquela outra parte do pesadelo, ainda pior, alguma nova barbaridades.
Licenciamento e gestão ambiental beiram o fim.
Pesadelo, filme B de suspense ou viagem no tempo?
A retirada das mulheres dos ministérios, a exacerbação do machismo que se torna mais presente e a realidade de ainda ter que lutar contra a criminalização do aborto e a violência contra a mulher...
Trabalhadores terão que trabalhar ainda mais, por mais tempo e com menos direitos.
Pastores e religiosos assumem cargos políticos em um país laico, pregam em assembleias legislativas, e legislam como convém suas crenças.
O eterno privilégio de uns em detrimento de outros, a discriminação de cor, de gênero, de opção sexual, de opção religiosa...
Viagem no tempo de volta à Idade Média, quando mulheres eram queimadas, rebeldes açoitados, homossexuais exorcizados...
Correndo as notícias do mundo, não varia muito a realidade. Tempos de defender o óbvio...
Me permito o luto pela tentativa de sepultamento de direitos conquistados.
Estão querendo enterrar a liberdade.
Já mataram línguas, etnias, culturas, povos e o meio ambiente fenece.
Entristeço com a falta de empatia de tantos...
Porém, tendo tomado fôlego, deixo o luto e não desisto da luta por nenhum direito a menos.



