quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Finados


O dia dos mortos foi ensolarado. Mesmo com sol, um sentimento de luto amanheceu comigo. Um desejo de recolhimento, uma introspecção sem hora, atípica presente a semanas, meses. Se intensificou nos últimos dias.
Talvez seja um estranhamento, um aguçamento dos sentidos por conta do 31 de outubro. Comercialmente tomado pelos EUA e formatado como o Hallowen, mas que originalmente evoca espíritos e seres míticos de diferentes culturas, relembra folclores, bruxas e feitiçarias, parte da história do mundo e parte da história de luta e resistência das mulheres.
Talvez pelos resultados das eleições municipais, cena facilmente ilustrada pelo que há de mais bizarro e assustadoramente conservador tomando cargos de prefeitos e vereadores pelo país afora. Por mais que não acredite nesse sistema político representativo, ainda persiste um desejo de ver algo diferente acontecer. 
E nesses três dias de 31 de outubro a 2 de novembro, entre mitos, todos os santos e mortos, atentei para o cenário mórbido que se apresenta.
Um país governado pela cúpula do egocentrismo e do caráter duvidoso, que janta os direitos da sociedade em banquetes luxuosos. Em troca pelos direitos sociais: um maior endividamento do país para atendimento dos interesses das instituições financeiras intimamente negociados com os monstrengos do congresso. Entretanto o discurso vende: "é para livrar o país da crise".
Enquanto isso, tentam aprovar salários vitalícios para vereadores do Rio e declaram estado de calamidade no estado, mas negligenciam a possibilidade de cortar incentivos fiscais. 
Houve aumento salarial do judiciário e também foi "conquistado" o aumento de R$ 58 milhões para deputados, senadores e ministros.
Aumentos estes ¨possíveis¨ porque pretendem congelar por 20 anos verbas para a saúde, a educação, a assistência social e serviços públicos em geral, foi suspenso o programa nacional contra o analfabetismo, venderam o pré-sal, cortaram benefícios de idosos e deficientes em situação de vulnerabilidade financeira, além de outras perversidades absurdas.
Parcela da população que se indignou contra a corrupção meses atrás, parece que foi tomada por algum mal e, tendo sido hipnotizados, permanecem focados exclusivamente em suas próprias vidas. A corrupção acabou?
Por outro lado, aqueles que se rebelam e se manifestam são forte e violentamente atacados com cassetetes e bombas atiradas por robôs responsáveis pela "ordem pública". Nem idosos, nem crianças são poupados. Manifestantes vão presos por qualquer motivo inventado na hora. 
Para reivindicar melhores condições de ensino e garantir o livre pensar, estudantes ocupam suas escolas e universidades, cuidam delas e buscam o conhecimento teórico e prático que entendem como necessário para sua formação.  
Então... é liberada aos policiais militares a tortura de estudantes. Policiais e classe média burguesa agem com violência física e psicológica contra adolescentes...
Tem gente que perdeu a vergonha e escancara mesmo suas intolerâncias e aversões. Candidato é eleito mesmo após afirmar que vomita com cheiro de pobre. Ódios exacerbados, intolerância e incitação a violência contra a diversidade.
E a censura vai botando as asinhas de fora outra vez.
Veja só! Teatro de rua foi interrompido, um ator preso e instrumentos musicais apreendidos.
Naquele momento em que você acha que vai acordar, vem aquela outra parte do pesadelo, ainda pior, alguma nova barbaridades.
Licenciamento e gestão ambiental beiram o fim.
Pesadelo, filme B de suspense ou viagem no tempo?
A retirada das mulheres dos ministérios, a exacerbação do machismo que se torna mais presente e a realidade de ainda ter que lutar contra a criminalização do aborto e a violência contra a mulher... 
Trabalhadores terão que trabalhar ainda mais, por mais tempo e com menos direitos.
Pastores e religiosos assumem cargos políticos em um país laico, pregam em assembleias legislativas, e legislam como convém suas crenças.
O eterno privilégio de uns em detrimento de outros, a discriminação de cor, de gênero, de opção sexual, de opção religiosa...
Viagem no tempo de volta à Idade Média, quando mulheres eram queimadas, rebeldes açoitados, homossexuais exorcizados...
Correndo as notícias do mundo, não varia muito a realidade. Tempos de defender o óbvio...
Me permito o luto pela tentativa de sepultamento de direitos conquistados.
Estão querendo enterrar a liberdade.
Já mataram línguas, etnias, culturas, povos e o meio ambiente fenece.
Entristeço com a falta de empatia de tantos...
Porém, tendo tomado fôlego, deixo o luto e não desisto da luta por nenhum direito a menos.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

tum-tum tum


Inspirado nas ruas e nos estudantes em luta, quando muitos enxergam grande motivação para se rebelar, o coração abriu as portas do peito e se jogou em manifesto de tambor de couro esticado em punho.
Lembrou dos anos de afinco no desempenho de suas monótonas funções de bombear sangue, jorrar oxigênio, regular emoções.
Depois de dias martelando ritmado sobre as muitas vezes que teve que lidar com acelerações repentinas, ser preenchido para em seguida desinflar num sopro...
Tantas vezes trabalhou sob a tensão angustiante que o fez quase parar... quantos sustos e decepções...
Tesões e paixões.... que se vão...
Decidido, despiu parte de sua veste ventricular e colocou uma música para tocar. Uniu protons e eletrons a força entre suas cavidades e resolveu que dançaria independente da harmonia musical.
Como um dançarino contemporâneo mostrou um novo compasso de 3 por 2, estranho, mas que, curiosamente, cabia na música!
Bate esquisito. Se rebelou, porque cansou de tanto improvisar.
Mas não é nada não.
É que está faltando cinema com pipoca, abraço longo e sincero e banho de mar.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Sobre ser mulher

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”. Simone de Beauvoir

Na infância, bonecas e brincadeiras de fazer comidinha, casinha....
Aos 9 anos, meu primeiro assédio.
Cantava feliz e inocente dependurada na janela do ônibus da escola. Era uma música brega e meio sensual do Sidney Magal (!!!). Um homem me viu cantando e fez gestos com as mãos e com a língua remetendo ao ato sexual. 
Aos 10, fui obrigada a usar a parte de cima do biquíni na praia para esconder meus mamilos que haviam estufado meio centímetro cada. 
No aniversário seguinte, atirei meu presente na parede: meu primeiro sutiã. Nem imaginava o simbolismo que isso teria um dia. 
Aos 12, sofri pela primeira vez de violência sexual.... Apaguei e reescrevi essas últimas palavras... porque mulheres sempre tendem a amenizar questões de desrespeito e violência de gênero que sofreram ou sofrem. Mesmo com esclarecimento, é difícil falar. Tanta repressão e submissão fingindo não ser... Naturaliza, minimiza, ridiculariza. 
Saí para comprar uma revista e o jornal para o meu pai. Três meninos de idade próxima a minha estavam juntos e um deles passou a mão no meu ânus, reproduzindo o aprendizado machista ensinado por algum adulto. Tamanha foi minha perplexidade e raiva....
Ficou tudo guardado só pra mim.
Fora coisas mais explícitas desse tipo, a partir dessa época, comecei a ter que me conformar que eu e somente eu teria que lavar a louça dos almoços de final de semana, enquanto meus irmãos faziam o que lhes trazia prazer ou descanso. 
Mediam o comprimento da minha bermuda na escola: "no máximo 4 dedos acima do joelho". Ouvia repreensões porque "mulher não fala palavrão", fui chamada de puta por beijar meu namoradinho num banco de praça...
Perto dos 20 anos, passei 15 dias numa aldeia indígena isolada no Mato Grosso e 4 meses numa reserva na Amazônia. Fui sozinha. Para conseguir ir tive que omitir até chegar lá ou até o momento de ir. Afinal, eu sou mulher e eu poderia correr riscos e isso estava fora dos padrões. 
Por ser mulher, passei anos tendo que usar vestes e amarras para me enquadrar. Acabei casando e tendo filho. 
E hoje me dispo destas vestes e amarras sociais e psicológicas que não são minhas. Algumas são difíceis de identificar. Como o machismo também o é. Tão enraizado e naturalizado... tem gente que nem nota na própria fala. 
Talvez não tivesse casado... Talvez fosse mais livre. 
Hoje, trabalho, pago as contas, crio uma criança, cuido da casa, faço comida, vou ao mercado e à feira, troco lâmpadas, vou à reuniões de escola, levo o carro no conserto, abro potes, conserto tomadas, etcétera. 
E ainda! Sinto na pele a imposição cultural de que a função precípua da mulher que tem filho é ser mãe. Não adianta nenhum argumento.
Mãe é sabedora de todas as soluções, detentora do saber primordial sobre as crianças e "tem coisas né?! que só a mãe mesmo!". Mãe tem que estar pronta em qualquer imprevisto. 
Êeeh cansaço!
Ah! "E você deveria ter orgulho disso!"

"Você abandonou seu filho e foi pular carnaval!"
E ainda tenho que ouvir esse tipo de coisa!!!

Minha história não tem nada demais comparada às histórias vividas por muitas mulheres. Mas é sempre bom lembrar que esse dia é de luta por mais respeito ao feminino. De perceber até que ponto há tolerância demais em situações de machismo naturalizadas.
Enxergar e não deixar mais situações como essas se tornarem banais é resistir. Não deixar perpetuar. 
Meu ato mais revolucionário e maior desafio é criar um menino que não faça distinção nem de cor, nem de gênero, ou outra distinção qualquer, apesar desse mundo esquisito ao redor. Não deixarei perpetuar.

Mulheres, suas lindas, parabéns pela força!

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Me apaixono

Vejo aos montes carcaças fortes e vistosas, cheias de vigor e transpiradoras de um ar de inabalável segurança.
Pode ser belo para os olhos.
Mas são as frestas abertas por descuido e que deixam ver um cantinho da alma, um tantinho da fragilidade e real beleza do ser que me fascinam.
Saber dos amores e dores; descobrir os anseios, as essências, os medos; conhecer as coisas simples que extasiam; ouvir as histórias que tramam a veste das emoções; saber das buscas e do que foi deixado para trás...
É a alma despida de véus, a entrega insensata, desavergonhada e imoral...  seja por sengundos... seja apenas por uma troca de olhar de cumplicidade ou um gesto que expresse compreensão.
Me apaixono.
Naqueles momentos magnéticos que criam um campo de força ao redor e faz tudo o mais ficar parado... Resultado de trocas sinceras.
Então me apaixono pelo moço da poltrona ao lado que me conta sua história com olhos marejados durante um vôo de 1 hora de duração.
Me apaixono pelo senhor pescador que me olha com olhar de quem me conhece, se larga em espontânea conversa e com quem sinto profunda familiaridade por partilhar das dificuldades e belezas da vida dos homens do mar.
Quantas moças que dividiram com intensidade suas histórias de amor e de mãe, suas alegrias e dissabores... Apaixono.
Meus amigos...
E esses moços que entram e que passam e que abrem janelas com vista para paisagens das mais belas...

Me apaixono pelo lado mais humano de cada um. Desconhecido ou próximo.
Me apaixono por aquilo que faz lembrar dessa unidade de todos os seres, o que me liga a eles, a todos... Esse desejo inato de ser feliz.